Este texto é de 2017. Em 2026 ele foi revisto, e a releitura pode ser lida em Voltando a Wallon com o que sabemos hoje.
Texto publicado originalmente em duas partes, em janeiro e fevereiro de 2017, aqui reunidas.
Como vocês podem perceber tenho escrito e falado muito sobre o ser humano inteiro, sobre globalizar o ser humano, na necessidade urgente de trabalhar uma educação emocional no ser desde o seu nascimento. Parte de minha fala vem da teoria de Henri Wallon, médico, psicólogo e filósofo francês do início do século passado e que deixou como legado uma visão humanista do mundo e da educação.
Em 1947 fez as bases da educação francesa tremerem com suas teorias, como a da não reprovação escolar através das avaliações, as famosas provas, levantando a bandeira da afetividade, e que o desenvolvimento intelectual envolve muito mais do que o pensamento lógico.
Fazendo um adendo aqui, sou uma pessoa que defende a progressão da educação, desde que empregada com qualidade e respeito ao entendimento do porquê da não reprovação, do sentido de se utilizar disso enquanto método, coisa que infelizmente não aconteceu e como sempre aquilo que não é compreendido gera problemas incomensuráveis, assim como foi o emprego do construtivismo como técnica, erro profundo e coleção de problemas na educação por conta disso. Mas isso é assunto pra outro momento.
Wallon fundamentou suas ideias em quatro elementos básicos que se comunicam o tempo todo: a afetividade, o movimento, a inteligência e a formação do eu como pessoa. Percebe o movimento e as emoções como atuantes conjuntos e assume que o movimento começa desde a vida fetal.
Se pensarmos que o movimento quase sempre é uma reação, que antes dele existir ocorreu uma percepção, uma emoção e/ou sentimento, um processamento dessas informações para depois como resposta um movimento, por menor que seja, a interação do feto com o mundo já está em processo de aprendizagem, de coleta de informações.
Ele também afirma que a criança tem sua própria lógica de pensamento e que esse pensamento é carregado de afetividade, fora do mundo da lógica, pois ocorre por sincretismo, ou seja, a criança reúne todas as informações que possui, reais ou de suas brincadeiras e fantasias e aplica como explicação daquilo que acredita ser algo. Um tanto parecido com as hipóteses de Emilia Ferreiro.
Em ambos os casos, tanto do sincretismo como das hipóteses, é com a orientação dos adultos, por meio dos estímulos recebidos sobre o que vem a ser o mundo ao redor dessa criança, que ela passará a compreender os mais diversos assuntos de forma lógica.
Sobre a escola, Wallon determina que por ser uma instituição social deve promover a continuidade da socialização e deve desempenhar o papel de integralizar o social e o individual, formando ambos. Compreende o ser humano como social e histórico, como ser biológico e material e ainda como emocional, dando maior enfoque nesse ponto, pois para ele, para compreender o pensamento humano é necessário compreender seu emocional.
Venho dizendo desde o primeiro momento, onde determino o ser humano e suas partes, que em pleno caminhar do século XXI sejamos incapazes de perceber que somos muito mais do que seres lógicos e racionais, e que nossa educação é muito falha por não trabalhar todos os nossos aspectos e potencialidades, e que para termos um mundo completamente globalizado e rumo a evolução precisamos de seres humanos globalizados, com condições de ver a si e ao outro com respeito e compreensão, de se ver no outro — e isso inclui o plano físico e terrestre como nossas ruas e cidades, bem como nossa casa planetária, que infelizmente acaba passando despercebida por grande parcela da humanidade.
A educação emocional deve existir para orientar o ser humano a ser humano, e não para ser útil quando em caso de conflitos emocionais e doenças psíquicas. E existe tão mais a ser visto e reorientado, que essa é só a ponta do início.
Parte 2
Publicada em 10 de fevereiro de 2017.
No artigo e vídeo anteriores falei que gosto bastante de Wallon e, para reafirmar isso, resolvi aprofundar um pouquinho mais em sua visão. Acho que ele é pouco refletido, principalmente no contexto escolar; vejo que a escola poderia ser muito melhor se o levassem em consideração — se bem que, na verdade, acho que são muitos os autores a ser levados em consideração, não como técnica ou método, mas como informação sobre como lidar com o ser humano em formação, compreendendo as fases naturais de maturação e desenvolvimento humano, biológico e psicológico.
Então estamos aqui para uma continuação da psicogênese da pessoa completa de Wallon.
Wallon afirma que a construção do eu corporal é a condição para a construção do eu psíquico, e isso começa a ocorrer a partir do segundo ano de vida. Mais ou menos por volta do terceiro ano a criança entra em oposição a praticamente tudo o que o adulto oferece a ela: é a fase do não. Nesse momento essa criança está se diferenciando do outro e do meio ambiente.
Aqui a criança passa a se reconhecer como diferente do outro e do ambiente em que vive, pois desde o ventre materno essa criança vive meio que em simbiose, a princípio com a mãe e depois com as pessoas ao seu redor, inclusive com seu meio ambiente e objetos que a cercam.
Nessa fase de diferenciação é muito importante que a criança perceba-se bela e amada, pois ela está construindo a sua autoimagem e percepção corporal, dando início à sua formação psíquica, ou seja, quem se é. Para se reconhecer e se perceber no futuro como uma pessoa inteira, de bem consigo mesma e pertencente a algum lugar, é nessa fase que devemos dar ênfase às qualidades e percepções sobre si.
A fase do não existe justamente para que haja compreensão do que “eu” quero em relação ao que o outro quer. Mesmo que a criança queira o que está sendo oferecido a ela, a princípio ela responde não. Exemplificando: Quer almoçar? — Não! Mas você deve estar com fome, já é horário do almoço, quer almoçar? — Não! Hummmm, eu fiz batatinha que você gosta. — Tá bom, batatinha!
Essa crise de oposição volta a ocorrer na adolescência de outra forma: essa fase apoia-se em argumentos intelectuais e nos aspectos emocionais. O jovem sente a vida intensamente, mas consegue refletir e argumentar sobre o que sente. Essa fase ocorre quando o jovem precisa reconstruir a sua personalidade, preparando-se para ser adulto; ele expressa seus sentimentos com todo o corpo, lembrando que nessa fase seu corpo está fervilhando com os hormônios e as mudanças, preparando-se para a reprodução e o amadurecimento.
Nesta fase mímicas, gesticulações, gritos, altas gargalhadas e movimentações físicas fazem parte do cotidiano do jovem adolescente, que está reconstruindo a sua identidade. É como se tudo o que recebeu do mundo — dos pais, da família, da escola e da comunidade — até aqui fosse posto à prova, e esse jovem precisa reorganizar essas informações para consolidá-las ou renová-las.
Passa a amar o desconhecido e as novidades do mundo. É como se uma grande porta se abrisse e ele percebesse que o mundo é muito maior do que era antes; somando-se a intensidade dos sentimentos e hormônios, tudo o que está do lado de fora se torna, por demais, atrativo.
Para Wallon esse período confere ao jovem uma capacidade de representar mentalmente uma pessoa, uma cena ou uma situação, ampliada de tal modo que o limite entre o real e o imaginário torna-se bem pequeno. A criatividade está altamente favorável.
Sendo essa uma fase de muita curiosidade e descobertas, é de se pensar normal ser uma fase de oposição, pois descobre um mundo bem maior do que o que lhe foi oferecido até então, que existem coisas diferentes a serem descobertas e provadas e que pode ser que ele prefira outras vertentes que não somente aquilo que lhe foi oferecido. Existe um lado muito positivo nessa fase, que se abre para o conhecimento de outras culturas e pessoas, ampliando os conhecimentos e possibilidades, ainda mais na atualidade; mas há também as curiosidades negativas, como a curiosidade para as drogas e outras situações.
Creio que, de posse dessas informações, é possível diminuir os conflitos entre adultos e adolescentes, bem como em sala de aula.
No que tange à afetividade, para Wallon as emoções são reações organizadas e que atuam sobre o sistema nervoso central, principalmente no primeiro ano de vida. Os adultos, por exemplo, costumam utilizar o pensamento antes de reagir a alguma emoção, ou seja, existe uma ponderação, que a meu ver passa pelas experiências, por toda uma aprendizagem já construída na vida, ponderando a necessidade de reação.
Lembrando que mesmo no adulto nem sempre isso ocorre: há emoções que são reativas de imediato, não há tempo hábil para refletir, como numa situação de susto intenso. Sendo assim, as emoções estão relacionadas ao próprio ser, ou seja, ao corpo físico.
As emoções são acompanhadas de alterações orgânicas como aceleração dos batimentos cardíacos, mudanças no ritmo da respiração, dificuldades na digestão, secura na boca, etc., além de alterações faciais e posturais e na execução dos gestos, perceptível para quem os vê — ou seja, todas as emoções estão vinculadas às alterações do tônus muscular.
Com a evolução das etapas, o recurso da fala e a representação mental no indivíduo faz com que as reações afetivas possam ser provocadas por situações abstratas e ideias, e ser expressas por palavras e não somente por atuação muscular. É a linguagem em benefício da afetividade.
Neurologicamente falando, a função tônico-postural é responsável pela regulação da musculatura e está a serviço da expressão das emoções, atuando também como produtora de estados emocionais, criando assim um estado de reciprocidade entre o movimento e a emoção. Outro ponto importante sobre a postura emocional do corpo é que essa atividade do tônus muscular permite que tenhamos consciência do nosso próprio estado emocional e do outro também.
Wallon afirma ainda que a emoção é a forma primária do indivíduo de adaptação ao meio e mais à frente tende a ser suplantada pelo intelecto. O intelecto é objetivo e as emoções podem afetar essa objetividade e diminuir o desempenho intelectual devido à subjetividade emocional.
A meu ver o ser humano sempre sente primeiro, mesmo na fase adulta, mas a partir da adolescência passa a modular esse sentir através do refletir: capta pela emoção e a pensa, argumenta consigo mesmo e depois transforma em palavras ou gestos, comunicando, expressando esse sentimento já pensado. Lembrando que se a emoção for intensa, ou a partir de um susto, por exemplo, a resposta física é imediata.
E, além de ter como primeira porta para o mundo o sentir, desde o útero já existe conexão com o cognitivo, não de forma consciente, mas tudo o que é sentido já é registrado pelo cognitivo para que se crie uma rede neuronal dessas experiências e sensações que com o tempo serão conscientes pelo indivíduo.
Heloisa Dantas diz que a razão nasce da emoção e vive da sua morte. Vejo que essa frase resume bem o “pacote” de explicações de Wallon nesse momento.
A linguagem é o instrumento e o suporte indispensável aos progressos do pensamento. A linguagem exprime o pensamento ao mesmo tempo que age como estruturadora do mesmo. O impacto da linguagem sobre o desenvolvimento do pensamento e da atividade global da criança é imenso.
Pensando na motricidade, que para Wallon é a expressão física da afetividade, podemos afirmar que a atividade muscular existe mesmo sem deslocamento do corpo no espaço. A musculatura possui função cinética (movimento) e função tônica (postural), determinada pelo tônus muscular, ou seja, atua sobre si mesma, através de grupos musculares que se contraem e relaxam sustentando a postura.
É nesse momento que minha outra área de atuação profissional, a fisioterapia, fala por experiência: a postura do sujeito fala muito sobre o que se passa internamente em seus processos psíquicos. Não só fala, mas deixa marcas registradas como vícios posturais, ou seja, sempre que o indivíduo for pensar sobre a sua vida financeira, por exemplo, ele adquire a mesma postura de reflexão, ou sempre que for ler o jornal tem uma postura adquirida para esse momento também. O indivíduo consolida certas posturas para certos tipos de reflexões, o que infelizmente pode levar a lesões consideráveis no corpo, como escolioses, dentre outras.
Resumindo, a motricidade é a expressão através do corpo do que ocorre nos processos internos do indivíduo, tanto no âmbito afetivo como racional. Sendo assim, temos a noção de que não somente o fator intelectual ativa a cognição, mas a emoção, a postura e o movimento também, tanto no movimento de dentro para fora como de fora para dentro.
Wallon dá o nome de disciplinas mentais para o momento em que o indivíduo passa a ter o controle voluntário dos movimentos através do pensamento, do seu querer realizar, ocorrendo por volta dos 5 aos 11 anos. E afirma que a escola é muito importante na consolidação das disciplinas mentais, ou seja, nesse refinamento humano que sai da instabilidade do psicomotor para os atos mentais, onde o movimento é pensado. Sendo bem nessa fase que a escola precisa atuar de forma mais equilibrada sobre a psicomotricidade.
A psicogênese da pessoa completa de sua teoria suscita uma prática que atenda às necessidades da criança nos planos afetivo, cognitivo e motor, e que promova o seu desenvolvimento em todos esses níveis.
A ótica walloniana constrói uma criança corpórea, concreta, cuja eficiência postural, tonicidade muscular, qualidade expressiva e plástica dos gestos informam sobre os seus estados íntimos. Supõe-se que a sua instabilidade postural reflete nas suas disposições mentais, que a sua tonicidade muscular dá importantes informações sobre seus estados afetivos. O movimento é um fator ativo para a aprendizagem em todas as idades, sendo a imobilidade mais um obstáculo do que um benefício.
A atenção e a concentração também são possíveis no movimento. Pense numa criança brincando e totalmente absorvida pela situação, em total concentração: ela brinca em movimento e está concentrada. Pegue essa mesma criança e a coloque sentada olhando para algum objeto de estudo — provavelmente perderá o interesse rapidamente e não ficará concentrada. Em muitos casos são as variações posturais que permitem a manutenção da atenção na atividade.
Aristóteles, nascido há cerca de 2.400 anos, criou um método para suas aulas, chamado de aulas peripatéticas, onde caminhava com seus alunos enquanto explicava, pois para ele o fluxo dos pensamentos fluía melhor.
O meio escolar é muito importante para apoiar as diferentes etapas do desenvolvimento e deve ser muito bem explorado. A escola deve planejar suas atividades não só pelo tema, mas pela extensão do seu espaço, planejando e pensando na necessidade de cada fase do ser.
É bom lembrar que a escola, ao possibilitar uma vivência social diferente do grupo familiar, desempenha um importante papel na formação da personalidade da criança. Quanto maior a diversidade de grupos de que participar, mais numerosos serão seus parâmetros de relações sociais, enriquecendo sua personalidade. Vejo que, nesse caso, essas relações a princípio devem ser mediadas: um adulto consciente mediando as diversidades sociais para o enriquecimento dos grupos, ou seja, para que todos os grupos absorvam esse convívio social de forma positiva.
Assim como Wallon dizia, é necessário buscar apoio nas mais diversas áreas do conhecimento humano para oferecer suporte à pedagogia e à educação, e não somente na psicologia. Felizmente é preciso ir além quando se trata da lide com o outro, principalmente porque seres estão sendo formados através de toda a experiência que vivem; estímulos positivos bem pensados podem reconstruir uma nação. E agora, me apoiando um pouco em Freud, o exercício da pedagogia e da arte de ensinar não é para qualquer pessoa, até porque pode ser considerada uma tarefa impossível, pois envolve muito amor, conhecimento e esvaziamento de si.

Deixe um comentário