Inteligente ou esperto? O que sabemos hoje sobre inteligência

O assunto inteligência desperta certa inquietação nas pessoas. É algo que queremos ter, mesmo sem saber ao certo o que é. Sabemos que, sendo inteligentes, teremos algum mérito em alguma área.

Pois bem, não existe uma definição única de inteligência, e cada época produziu a sua. Houve um tempo em que se acreditava que os mais inteligentes eram os de crânio maior (sim, os cientistas mediam as cabeças!). No início do século XX, o governo francês pediu a Alfred Binet uma forma de identificar crianças que precisavam de mais apoio na escola. Daí nasceram os testes que deram origem ao famoso QI. O objetivo inicial não era rotular ninguém, mas ajudar a intervir cedo nas dificuldades de aprendizagem.

O que a ciência sabe hoje

A neurociência cognitiva trouxe uma notícia importante: a inteligência não é um número fixo que nasce com a gente. Stanislas Dehaene, um dos principais pesquisadores da aprendizagem no mundo, explica que a inteligência é uma capacidade como qualquer outra: ela se apoia em circuitos do cérebro que mudam com o treino e com a educação (Dehaene, 2022).

Os números impressionam. Crianças de 4 a 6 anos com QI baixo, adotadas por famílias com melhores condições, ganharam cerca de 20 pontos de QI até a adolescência. As adotadas por famílias com menos recursos ganharam 8. E cada ano a mais de escola acrescenta de um a cinco pontos (Dehaene, 2022). Ambiente, oportunidade e educação de qualidade fazem diferença, e muita. Isso não nega a herança: há um componente hereditário na inteligência, e ele não impede que o ambiente e a educação movam o resultado. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e os números acima mostram o quanto.

Talvez você já tenha ouvido falar das inteligências múltiplas, de Howard Gardner. Ele definiu a inteligência como um potencial biopsicológico que se desenvolve conforme as oportunidades que a cultura oferece, e essa ideia a ciência atual confirma. Sua teoria também ampliou o olhar sobre o talento e segue como referência para observar habilidades na identificação de altas habilidades no Brasil. O que as pesquisas não confirmaram foi a divisão em inteligências separadas e independentes (Waterhouse, 2006). Algo parecido acontece com a ideia de que cada criança tem um “estilo de aprendizagem” próprio. Dehaene mostra que é um mito: todos nós usamos circuitos cerebrais e regras de aprendizagem muito semelhantes. O que realmente varia entre as crianças é o que elas já sabem, a motivação e a rapidez com que aprendem (Dehaene, 2022).

Inteligente ou esperto?

No senso comum, há duas formas clássicas de pensar a inteligência. O “esperto” é aquele que se vira nos momentos de necessidade, fala bem e sempre arruma um jeito de resolver as coisas. O “inteligente” é o que vai bem na escola, tira notas altas, fala difícil e resolve equações de física.

Já presenciei pais que dividem os filhos assim: um é o inteligente, o outro é o esperto. Como crescem essas crianças, reforçadas todos os dias por esses rótulos? Pode ser que uma cresça confiante na própria capacidade acadêmica, e a cada boa nota mais uma comprovação. A outra pode se desenvolver acreditando que é boa no jogo de cintura, mas passar a evitar as questões acadêmicas.

A ciência confirma o perigo. Dehaene alerta que acreditar que tudo deve vir fácil pode levar a criança a se achar “burrinha” quando não vai bem. E muitas crianças perdem a autoconfiança e a curiosidade porque seus erros são punidos em vez de corrigidos. O caminho é mostrar que aprender dá trabalho para todo mundo, e que o esforço faz todo mundo avançar (Dehaene, 2022).

Uma pessoa inteira

A ciência precisa separar e fragmentar para estudar e compreender, e isso é sensacional. Mas é preciso juntar de novo as partes para pensar no todo: a criança nunca é apenas um cérebro aprendendo ou um corpo que se desenvolve. É uma pessoa completa, que se desenvolve a partir de si no mundo.

Todos somos dotados de inteligência, inclusive pessoas com traumas, lesões ou distúrbios cerebrais. Somos únicos e sociais, iguais e diferentes, simples e complexos. E é nessa dicotomia que vamos aprendendo sobre ser humano.


Referências

DEHAENE, Stanislas. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…). Tradução de Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2022.

WATERHOUSE, Lynn. Multiple intelligences, the Mozart effect, and emotional intelligence: a critical review. Educational Psychologist, v. 41, n. 4, p. 207-225, 2006.