Uma criança erra a conta no quadro e a turma ri. Um adolescente recebe a prova com muitos erros e nota baixa, guarda sem olhar e se fecha em si, pensando em como vai mostrar aos pais. Um adulto deixa de perguntar no trabalho com medo do que irão pensar dele por não saber. E assim vamos aprendendo que errar é vergonhoso, inadequado. Mas para o nosso cérebro errar é puro ouro.
O cérebro aprende por comparação
O neurocientista Stanislas Dehaene explica que o cérebro funciona como uma máquina de previsões. A todo momento ele tenta adivinhar o que vai acontecer. Depois, compara a previsão com o que de fato aconteceu. A diferença entre o que esperávamos e o que veio é o que os cientistas chamam de erro de predição, ou seja, uma surpresa. É essa surpresa que faz o cérebro ajustar o que sabe, para acertar melhor da próxima vez (Dehaene, 2022).
Isso não é só teoria. Nos anos 1990, o neurocientista Wolfram Schultz e seus colegas mostraram que os neurônios de dopamina, uma substância química do cérebro ligada à motivação, reagem à diferença entre a recompensa esperada e a recebida (Schultz; Dayan; Montague, 1997) — um caso particular do mecanismo que Dehaene descreve, que é mais amplo e inclui também o erro de percepção e o erro de cálculo. Por isso Dehaene resume: sem surpresa, não há aprendizado. Quando tudo sai exatamente como previmos, o cérebro não tem o que corrigir. E, em geral, quando não há o que corrigir é porque o conhecimento necessário sobre determinada coisa já foi adquirido.
O que ensina é o retorno
Isso não quer dizer que o bom caminho seja errar muitas vezes. O que ensina de verdade é receber um retorno claro, que mostre onde estamos certos e onde precisamos ajustar. Uma das maiores reuniões de pesquisas já feitas em educação, organizada por John Hattie, coloca o retorno entre os fatores que mais influenciam a aprendizagem (Hattie, 2009).
A psicóloga Janet Metcalfe, que revisou décadas de estudos sobre o tema, mostra que errar e depois receber a correção ajuda a aprender. E há um detalhe curioso: os erros que cometemos com mais certeza, quando tínhamos convicção de que estávamos certos, costumam ser os mais bem corrigidos depois (Metcalfe, 2017). A surpresa de descobrir o engano marca a memória. Por isso o erro é ouro, ele demonstra que não tínhamos o necessário, mas que é possível adquirir mais conhecimento e ajustar as respostas.
Erro e punição
Se o erro é ouro para o nosso desenvolvimento cognitivo e afetivo, a maneira como quem nos ensina lida com nosso erro é extremamente importante.
Aqui mora um grande equívoco da nossa educação. Dehaene observa que, em muitas escolas pelo mundo, o retorno sobre o erro virou sinônimo de punição: a nota baixa, a correção humilhante, o rótulo. O resultado é que muitas crianças perdem a autoconfiança e a curiosidade (Dehaene, 2022).
E há um motivo biológico para isso. O neurocientista Robert Sapolsky mostra que o estresse prolongado prejudica o hipocampo, região do cérebro essencial para formar novas memórias (Sapolsky, 2021). O medo atrapalha justamente a capacidade de aprender, e um ambiente sem medo reabre as portas para o aprendizado (Dehaene, 2022). Quem tem medo de errar se protege, e quem se protege não arrisca responder, perguntar ou tentar de novo.
Na prática, em qualquer idade
- Incentivar o fazer, mesmo que outros erros apareçam. Explicar que errar mostra o que ainda precisa ser aprendido.
- Corrigir com clareza. Mostrar o que está certo e o que precisa mudar. O momento pode variar — há situações em que a correção logo em seguida funciona melhor, e outras em que um intervalo ajuda. O que não pode faltar é a correção.
- Separar o erro da pessoa. “Essa conta não fechou” é diferente de “você é ruim em matemática”.
- Perguntar antes de corrigir. “O que você esperava que acontecesse?” ajuda a pessoa a perceber a própria previsão.
- Usar testes para treinar, e não só para dar nota. Tentar lembrar a resposta, errar e conferir fixa o conteúdo melhor do que apenas reler (Roediger; Karpicke, 2006).
No texto anterior, falei sobre como os rótulos de “inteligente” e “esperto” limitam as crianças. O erro tratado como punição faz algo parecido: ensina que tentar é perigoso. Tratado como informação, o erro vira o que ele sempre foi para o cérebro: um ponto de partida para o desenvolvimento.
Referências
DEHAENE, Stanislas. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…). Tradução de Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2022.
HATTIE, John. Visible learning: a synthesis of over 800 meta-analyses relating to achievement. London: Routledge, 2009.
METCALFE, Janet. Learning from errors. Annual Review of Psychology, v. 68, p. 465-489, 2017.
ROEDIGER, Henry L.; KARPICKE, Jeffrey D. Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, v. 17, n. 3, p. 249-255, 2006.
SAPOLSKY, Robert M. Comporte-se: a biologia humana em nosso melhor e pior. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
SCHULTZ, Wolfram; DAYAN, Peter; MONTAGUE, P. Read. A neural substrate of prediction and reward. Science, v. 275, n. 5306, p. 1593-1599, 1997.

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