O que a panela de pressão me ensinou sobre atenção

Comprei uma panela de pressão nova, de um modelo que eu não conhecia. Lavei, levei ao fogão e fui experimentar. No cabo da tampa havia um símbolo: duas panelinhas, uma de cada lado, cada uma com uma seta embaixo. Olhei para aquilo várias vezes. Não significava nada.

Não é que eu não tenha visto. Eu vi, e sabia perfeitamente que eram duas panelas desenhadas. A imagem chegou, foi registrada, estava disponível. O que não aconteceu foi a associação: aquele desenho não encontrou nada em mim a que pudesse se ligar.

Enquanto isso, eu estava ocupada com o resto. O seletor no alto da tampa, com três posições. A janelinha com um indicador vermelho no meio do cabo. Um botão azul que eu puxava e soltava sem entender para que servia. Ao ligar o fogo, percebi que a panela não estava em pressão. Abri, fechei de novo — e ouvi o clique do botão travando.

Foi nesse instante que o desenho virou informação. As duas panelinhas não são duas panelas: são a mesma panela em dois estados. Uma sem vapor, fechada; a outra com traços de vapor, aberta. E as setas dizem para que lado girar. Óbvio. Tão óbvio que a primeira reação é rir de si mesma.

Ver não é compreender

Vale separar duas coisas que costumam ser tratadas como uma só.

A atenção seleciona o que entra, e é o primeiro dos pilares da aprendizagem descritos por Dehaene (2022). Essa parte funcionou: eu olhei e identifiquei panelas. O que estava ocupado era outro sistema, o espaço de trabalho onde a informação recém-chegada é mantida enquanto se busca, no que já se sabe, algo que combine com ela. Esse espaço é pequeno — as estimativas mais conservadoras falam em torno de três ou quatro itens mantidos ao mesmo tempo (Cowan, 2001) — e o meu estava tomado pelo seletor, pela válvula, pelo botão e pela dúvida sobre se eu tinha entendido tudo direito.

Suspeito que o fator decisivo tenha sido um terceiro, e é o mais interessante: talvez não houvesse o que encontrar. Para aquele desenho significar alguma coisa, eu precisava já ter o conceito de uma tampa que gira e trava, mas meus conceitos eram das panelas antigas, sem trava. Sem esse conceito, a busca não falha por falta de espaço — ela tende a voltar vazia, porque não existe a entrada correspondente, feita anteriormente. O clique não liberou capacidade. Ele criou a junção entre o que já havia no meu cérebro e o desenho no cabo da panela. Assim o desenho passou a ter legenda na minha cabeça.

Essa junção não é uma metáfora solta. Aprender é modificar conexões entre neurônios, e é por isso que o que já está registrado condiciona o que pode ser registrado em seguida: o novo se ancora no que existe (Kandel, 2009; Bear; Connors; Paradiso, 2017).

Isso ajuda a entender por que ler o manual antes — ou um texto antes da aula — nem sempre fornece o que é preciso para compreender o assunto. O manual descreve algo que ainda não tem onde se alojar. Foi preciso a experiência trazer dados conhecidos, o som do clique, para o texto passar a fazer sentido — e imagem também é texto: também precisa ser lida. A experiência tem peso decisivo para a nossa espécie.

O aviso que deixa de ser necessário

Logo depois de entender, o pensamento disparado foi: uau, que óbvio! Arrancou uma gargalhada e segui o dia refletindo sobre o assunto, a ponto de virar texto.

Se tornou óbvio porque consegui reunir todos os elementos da novidade em uma única compreensão, numa resposta à interação com o objeto, a partir do que eu já conhecia de objetos do meu mundo — tornando a imagem do cabo inútil. O clique, a resistência do giro e o peso da tampa já me dizem tudo. O símbolo servia de apoio para quem ainda não tinha o modelo, e apoio, por definição, é coisa que se retira quando a estrutura se sustenta sozinha. É a lógica do andaime, descrita por Wood, Bruner e Ross em 1976: o suporte existe para ser desmontado.

Isso tem nome na pesquisa sobre ensino. Há estudos mostrando que o mesmo material de apoio que ajuda o iniciante deixa de ajudar quem já avançou, e em certas condições atrapalha, porque obriga a processar uma informação que já se tornou automática. Kalyuga e colegas descrevem o fenômeno como reversão pela expertise, ou seja, pelo domínio do assunto (Kalyuga et al., 2003).

Daí uma consequência que interessa a quem ensina: o iniciante precisa do andaime e não consegue lê-lo direito; quem já sabe lê num instante e não precisa mais dele. É por isso que explicar algo para quem está começando é tão difícil para quem domina o assunto. O especialista costuma esquecer como era não ter o modelo.

Um mundo feito de símbolos

A panela é um caso particular de uma exigência que ninguém escolheu ter. Hoje se lê símbolo o tempo todo: etiqueta de roupa, painel do carro, botão da máquina de lavar, ícone de aplicativo, sinalização de aeroporto, rótulo de remédio. Cada um deles promete dispensar a palavra.

A promessa é essa: o símbolo seria universal e dispensaria idioma. Só que ele não carrega o significado dentro de si. Depende de uma convenção aprendida anteriormente. Quem nunca viu um disquete não tem por que associar aquele quadradinho à ideia de salvar um arquivo. Quem nunca usou telefone com fio e disco pode ter dificuldade em compreender o símbolo do gancho relacionado a telefone — alguém terá que explicar. Os ícones seguem ali porque quem os desenhou tinha essas referências.

Quem domina o símbolo apresentado compreenderá num piscar de olhos; quem está chegando sem informações anteriores terá que parar, supor, levantar hipóteses, testar, às vezes procurar mais informações fora. Dessa forma, a mesma tampa é cognitivamente clara para uma pessoa e sem sentido para outra — e a diferença não é inteligência, é de repertório e de experiências anteriores. O símbolo costuma funcionar como lembrete para quem já foi alfabetizado naquela simbologia, e raramente como ensino para quem não sabe. Por isso quase sempre alguém acaba girando, apertando e testando até o objeto responder.

O que fica

O óbvio precisa ser dito em muitas situações, pois a compreensão da simbologia e da bagagem de informações entre as pessoas, e entre a pessoa e o objeto, pode conter lacunas que serão resolvidas na experiência, ou seja, na prática, ou pela mediação do outro. Dessa forma, podemos levar um tempo para compreender situações que, com um pouco mais de informação, se tornam óbvias e até engraçadas. Faz parte do nosso desenvolvimento humano, faz parte do processo de adquirir conhecimento.

Referências

BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
COWAN, N. The magical number 4 in short-term memory: a reconsideration of mental storage capacity. Behavioral and Brain Sciences, v. 24, n. 1, p. 87-114, 2001.
DEHAENE, S. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina. São Paulo: Contexto, 2022.
KALYUGA, S.; AYRES, P.; CHANDLER, P.; SWELLER, J. The expertise reversal effect. Educational Psychologist, v. 38, n. 1, p. 23-31, 2003.
KANDEL, E. R. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
WOOD, D.; BRUNER, J. S.; ROSS, G. The role of tutoring in problem solving. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 17, p. 89-100, 1976.


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