O que o efeito Stroop mostra sobre o que já aprendemos

Em 2018, pesquisei e apresentei em congresso científico um estudo sobre o efeito Stroop nas diferenças entre os sexos masculino e feminino, publicado como artigo em 2022. O artigo tem uma linha acadêmica, e achei interessante trazer aqui um recorte mais leve sobre o efeito Stroop, complementando o viés do artigo — que está disponível nesta página e na revista em que foi publicado.


Faça um teste antes de continuar lendo. Abaixo há uma lista de palavras. A tarefa não é ler a palavra: é dizer em voz alta a cor em que ela está escrita, uma por uma, o mais rápido que conseguir.

AZUL   VERMELHO   VERDE   AMARELO   VERDE   AZUL

Possivelmente, houve alguma dificuldade e a resposta demorou mais do que o esperado. Talvez tenha dito a palavra em vez da cor e se corrigiu assim que percebeu. Esse esforço, que dá para sentir, tem nome.

O que aconteceu aí

O fenômeno foi descrito por John Ridley Stroop em 1935 e leva o nome dele. O teste Stroop de cores e palavras é uma ferramenta cuja tarefa consiste em três fases: nomeação de palavras; nomeação de cores; e nomeação das cores de palavras coloridas, levando a pessoa a responder de forma mais lenta e mais sujeita ao erro (Stroop, 1935). É um dos achados mais replicados da psicologia experimental, e segue sendo utilizado.

A explicação mais aceita é simples de enunciar e difícil de aceitar: para quem lê com fluência, ler não é mais uma escolha. A palavra é processada de qualquer jeito, mesmo quando a tarefa pede outra coisa, e a resposta que vem pronta compete com a resposta que você quer dar. Dizer a cor exige segurar a leitura — e segurar custa tempo, por isso a lentidão para responder.

Vale notar que o teste, na forma clássica, depende da leitura. Ele costuma ser aplicado a partir dos sete anos, idade em que a maioria das crianças já lê com automatismo suficiente para que o conflito apareça; antes disso não há resposta automática a ser inibida, e existem versões adaptadas com formas ou imagens. Com pessoas não alfabetizadas vale a mesma lógica: o teste clássico perde a eficácia, e é preciso adaptar o material. Kulaif (2005) estudou uma versão modificada, em que as palavras dão lugar a números, e verificou que ela produz efeito de interferência mesmo sem depender da capacidade de leitura.

O que explica o travamento

Três processos costumam ser apontados para explicar o que acontece durante o teste (MacLeod, 1991).

  • A velocidade de processamento da informação. Tem a ver com a eficiência dos processos cognitivos: captar, armazenar, integrar e transformar a informação. Esse dinamismo está no centro da aprendizagem, assim como a percepção, a atenção e a memória.
  • A atenção seletiva e a inibição. Quando a cor da tinta é diferente do nome escrito, o cérebro precisa frear a resposta automática da leitura e focar na cor. Esse esforço de inibição gera o atraso no tempo de reação e os erros.
  • O automatismo da leitura. Para quem já é alfabetizado, ler palavras é uma habilidade altamente automatizada. O cérebro processa o significado da palavra de forma quase instantânea e sem esforço consciente.

Rotas que o aprendizado permite

A psicologia cognitiva costuma descrever dois modos de processar o que chega: um controlado, que exige atenção, é lento e pode ser interrompido; e outro automático, rápido, que dispara diante do estímulo sem pedir licença (Shiffrin; Schneider, 1977). O que a prática prolongada faz é mover uma tarefa do primeiro modo para o segundo. Aprender a ler, a dirigir, a tocar um instrumento — em todos, no começo cada passo consome atenção, e depois o conjunto passa a correr sozinho.

Essa passagem é o que torna possível avançar. Dehaene descreve a automatização como o momento em que uma habilidade deixa de ocupar os recursos conscientes e libera espaço para o que ainda é novo (Dehaene, 2022). Quem ainda soletra não consegue pensar no sentido do texto, porque a decodificação está consumindo tudo. Quando a decodificação automatiza, a compreensão ganha lugar.

A mesma rota que libera espaço também responde quando não é chamada. É esse o preço que o teste de Stroop pede, em poucos segundos e sem nenhum dano: você percebe que existe um processo que não obedece.

Os dois lados da mesma coisa

No texto sobre a panela de pressão, contei o contrário disso: um símbolo que eu olhava e não significava nada, porque não havia em mim nenhuma rota pronta que respondesse por ele. A informação chegava e não encontrava destino. A atenção funcionou — eu via o desenho, sabia que eram duas panelas —, e ainda assim não havia leitura possível, porque ler um símbolo exige uma convenção aprendida antes. Enquanto essa convenção não existe, o que sobra é o esforço: parar, supor, testar, girar a tampa até o objeto responder. Foi o que aconteceu, e foi a experiência, e não o desenho, que fechou o sentido.

O Stroop é o outro extremo do mesmo mecanismo. Ali a rota existe, está firme, e atropela a intenção. Quem lê com fluência já passou por milhares de exposições às mesmas letras, nas mesmas combinações, com o mesmo resultado — e o que se repete assim deixa de precisar de decisão para acontecer. A palavra escrita vira significado antes que a pessoa escolha o que fazer com ela.

Entre um caso e outro há uma história de aprendizagem. O que hoje dispara sozinho já foi, um dia, difícil e lento: houve um tempo em que cada letra era um problema, em que juntar sílabas exigia toda a atenção disponível, em que ler uma frase inteira cansava. Nada disso desapareceu por acaso — foi substituído por prática repetida até que a tarefa passasse a se resolver sem supervisão.

Isso ajuda a entender por que desaprender costuma ser mais trabalhoso do que aprender. Não se apaga uma rota: constrói-se outra, e por um tempo as duas convivem, com a antiga chegando primeiro. Vale para a leitura, vale para a forma de segurar o garfo — e vale, com as devidas diferenças, para modos de reagir que se repetiram por anos. A resposta antiga não some porque a pessoa entendeu que ela não serve mais. Ela continua chegando antes, até que a nova tenha treino suficiente para chegar junto.

Referências

DEHAENE, S. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina. São Paulo: Contexto, 2022.
KULAIF, T. O teste de cores e palavras de Stroop modificado para analfabetos. Dissertação (Mestrado) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
MACLEOD, C. M. Half a century of research on the Stroop effect: an integrative review. Psychological Bulletin, v. 109, n. 2, p. 163-203, 1991.
SHIFFRIN, R. M.; SCHNEIDER, W. Controlled and automatic human information processing: II. Perceptual learning, automatic attending and a general theory. Psychological Review, v. 84, n. 2, p. 127-190, 1977.
STROOP, J. R. Studies of interference in serial verbal reactions. Journal of Experimental Psychology, v. 18, n. 6, p. 643-662, 1935.

Simone Simões — Psicóloga, CRP 06/176966. Mestra em Psicologia da Educação. Escrevo aqui sobre como a gente aprende, dentro e fora da clínica. Sobre · Contato


Comentários

2 respostas a “O que o efeito Stroop mostra sobre o que já aprendemos”

  1. […] O que o efeito Stroop mostra sobre o que já aprendemos — o estudo que apresentei em congresso em 2018 e publiquei como artigo em 2022, escrito agora em linguagem livre. […]

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  2. […] Em 2026 escrevi sobre o efeito Stroop em linguagem livre, fora do formato acadêmico: O que o efeito Stroop mostra sobre o que já aprendemos. […]

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